sábado, 9 de outubro de 2010

PROGRAMA TRADICIONALISTA VENTO SUL


 
GAÚCHO FARRAPO
Adenir Paz da Silva

Sou feliz, nasci Gaúcho,
Deus me deu este regalo,
sou briguento que nem galo
peleando no rinhedeiro,
sou pachola, sou faceiro,
sou bagual não tenho encilha,
sou livre, sou farroupilha,
pra lutar fui um guerreiro.

Sou xucro, criado guaxo,
falquejado em coronilha,
fui cincerro de tropilha
de um tempo maula e aragano.
Sou alçado, não tenho dono,
meu andar ninguém maneia,
sou noite de lua cheia
vigiando, não tenho sono.

Meu grito é retumbar de legüero
chamando e atiçando a tropa.
Meu destino é quem galopa
nas patas da evolução,
sou raiz, sou tradição
de um passado de glórias,
fui revolução, sou história
lutando por este chão.

Eu demarquei as fronteiras,
da República Rio-grandense,
o Rio Grande me pertence,
eu lutei para este fim,
fui tambor e fui clarim
nos fervores de uma guerra.
Eu sou filho desta terra,
fui farrapo e sou assim.

Sou bandeira que esvoaça
guarnecendo esta querência.
Me ajoelho em reverência
ao meu pendão desfraldado,
verde, amarelo, encarnado,
tem força de Liberdade,
Igualdade e Humanidade,
símbolos de que fui marcado.

Ser livre, este é o meu sentimento
que trago neste peito guardado,
e que só fica rebelado
quando a justiça se afasta.
Sou Gaudério, ninguém me castra,
sou taura e sou índio macho,
envergo mas não me abaixo.
Sou Gaúcho, e isto me basta!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

TRIBUTO AO PAYADOR
Adenir Paz da Silva

Silêncio, eu peço silêncio,
um minuto de respeito....
Finou-se, não teve jeito,
foi sua última tropeada
iniciando a galopeada
rumo às Estâncias do céu.
Tombou sem choro ou escarcéu
o Monarca da Payada.

A vida negou-lhe estribo
no corredor da existência,
o tempo não teve paciência.
- Fechou-lhe a tranca da porta
que nem laço, que se envolta
pealando de uma só vez
e deixando pro freguês
só a ida, e não a volta.

O Velho, Deus, quis assim,
o qüera foi chamado,
e dum jeito abarbarado
o chimango se embretou
pelo longo corredor
que leva direto pro céu
de lenço branco e chapéu,
pilchado de bota e espora
enveredou horizonte afora
e foi juntar-se ao Criador.

O dia nasceu chumbado
num gesto de reverência
pra aquele que na existência
foi o Grande Payador,
poeta, declamador,
pêlo duro e missioneiro,
do Rio Grande o companheiro,
dos gaúchos o professor.

O minuano assobia triste
uma canção de lamento,
e com todo o sentimento
chora a perda do campeiro,
sopra forte e se faz ligeiro,
se perde nas invernadas,
vai repontando manadas
de nuvens no firmamento.

Os gaúchos choram em silêncio,
o Rio Grande está de luto.
Morreu o poeta culto,
senhor da linguagem e do vento,
que tinha no pensamento
a marca do nativismo,
exemplo de gauchismo,
tradutor de sentimentos.

Foi manancial e cacimba
da cultura Rio-grandense,
herança que nos pertence,
legado que nos deixou,
semente que germinou
enraizando no peito
a tradição e o respeito
que o poeta eternizou.

Por isto rezo esta prece
pela alma do vivente!
Que o Patrão onipotente
ilumine esse bagual,
não foi um gaúcho mau,
foi payador de verdade.
E eu rendo a minha homenagem
a Jaime Caetano Braum!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

PROGRAMA TRADICIONALISTA VENTO SUL

CONTADOR DE CAUSOS - REVOLUÇÃO
Adenir Paz da Silva

A tropilha da existência
trouxe junto aquele velho,
sua idade era um mistério,
pra saber? - só adivinhando.
Le chamavam Valenciano,
índio curtido e campeiro,
que apesar dos seus janeiros
tinha ainda bom tutano.

Agachados à beira do fogo
com o olhar perdido no nada
Valenciano resmungava
coisas que ninguém entendia,
parece que se perdia
em sonho, de olhos abertos,
e quem estivesse por perto
tinha pena e até sorria.

Mas, em momentos de lucidez
buscava na sua memória
aquela carreta de histórias
que o tempo lhe havia confiado,
e num jeito de acanhado,
com voz calma e fala mansa
escolhia uma, dentre tantas,
iniciando assim o seu relato:

Bem antes, parceiro, bem antes
de acabar com a monarquia,
o gaúcho já sabia
o que tinha de fazer,
ser livre ou então morrer
lutando e não se entregando
aos desmandos soberanos
desses donos do poder.

O Rio Grande foi República,
nos apartamos do Reinado,
foi guerra pra todo o lado,
iniciamos o levante
empurrando tudo por diante
com sonhos de Liberdade,
que pra falar a verdade
não ficou muito distante.

Num tempo que já não sei
estes campos sem colheitas
não empanturraram as carretas,
se perdeu a produção,
o gado sem marcação
extraviou-se campo a fora,
alegria foi embora,
calejou meu coração.

Ficou tudo abandonado,
estância virou tapera
não suportando a espera
de acabar tamanha briga.
Sinto um frio na barriga
de lembrar tanta judiaria,
morte, choro e gritaria...
Mas passou, é coisa antiga.

Depois de dez longos anos,
por fim se acabou a peleia.
Nunca vi coisa tão feia:
a indiada peleando no braço,
sentindo o andar do aço,
guerreando de peito aberto,
debochando da morte bem perto
à base de lança e dagaço.

Vou encurtar este causo, parceiro,
pois a memória me trai um pouco,
não pense que estou louco
pedindo pra acreditar
mas é que tive de falar
nesses fatos assucedidos,
pois trago lembranças comigo.
Fui Farrapo, estive lá...

E assim voltava o Valenciano
a olhar através do nada,
sorrindo ou dando risada
do causo que vinha contando.
Acabava se calando,
perdido em recordações,
fungava para negar emoções,
confuso, triste e chorando.

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Um grande abraço.

Clovis Fonseca

Produtor e Diretor.

Rio Grande/RS.

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