quarta-feira, 6 de outubro de 2010

PROGRAMA TRADICIONALISTA VENTO SUL



SAUDADE DA QUERÊNCIA
Adão Carrazzoni de Jesus

Sou um gaúcho perdido
no turbilhão da cidade
e vivo, assim, entristecido,
carregando esta saudade.

Esta dor comigo eu trago
bem dentro do coração:
- Saudade lá do meu pago,
da querência, do rincão...
da chinoca endiabrada,
do cavalo alazão,
do pouso à beira da estrada,
do amargo chimarrão...

Do meu velho chiripá,
das botas e do facão,
do clarão do boitatá,
do quero-quero gritão...

De tudo saudades tenho,
de tudo o que é do Rio Grande
e nesta tristeza me embrenho,
minha alma não se expande!...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

 
CONSERVANDO A TRADIÇÃO
Albeni Carmo de Oliveira
 Tamanho da fonte 
Um dia um peão já velho,
Destes curtidos dos anos,
De alegrias e desenganos
Que arrebanhou tempo a fora,
Sentia chegar a hora
Do seu último pedido
Chamou o filho querido
E disse com a voz sonora:

- Meu filho chega bem perto
Para escutar o que te digo,
Pois mais que filho és um amigo
Por isso presta atenção,
E escuta meu coração
Que te fala com certeza,
E veja quanta beleza
Que existe na tradição.

Tradição não é grossura
E nem vergonha p'ra gente,
Pois tu deves ter na mente
O ventre que te gerou,
O berço que te embalou
Pois não nasceu da macega,
Honre o sangue que carregas
E a raiz que tu brotou.

Por isso quero pedir-te
Mais que um pedido, um favor:
Que tu sempre dês valor
Para as coisas do nosso Estado,
Procuras estar ao lado
Da justiça e da razão,
Nunca esqueças a tradição
Que herdastes do teu passado.

Nunca deixa deturparem
As coisas aqui do pago,
Das pilchas ao mate-amargo
Ouça o que este peão te diz:
Aí ficarei feliz
Se aprenderes a lição,
Que o povo sem tradição
É um povo sem raiz.

Olhes bem, quando mateares
Veja que linda comunhão,
A cuia de mão em mão
Sem preconceito ou vaidade,
Traduz a simplicidade
E as tradições deste Estado,
Onde o cru e o letrado
Vivem na mesma irmandade.

Procures estar presente
Nos movimentos gaúchos,
E saibas agüentar o repuxo
Quando a situação exigir,
Nunca penses em trair
As causas tradicionais,
Pois a glória de ancestrais
Sempre há de ressurgir.

Olhe sempre ao teu redor
E veja quanta beleza,
Que a nossa mãe natureza
Te deu sem nada cobrar,
Então deves preservar
Com carinho e com afeto,
Um dia teus filhos e netos
Também irão desfrutar.

Por isso que te chamei
Para conversar contigo
Atendas este teu amigo
E ensina teus descendentes,
A levar sempre p'ra frente
As epopéias caudilhas,
Como fizeram os farroupilhas
Defendendo nossa gente.

O pouco que preservares
desta glória e galhardia,
Será de grande valia
Para futuras gerações,
Que aprenderão as lições
De práticas e de destrezas
E saberão as grandezas
Destas nossas tradições.

Se atenderes meu pedido
Com orgulho, raça e fé,
E manteres sempre em pé
As coisas aqui deste chão.
Aí te darei a benção
E posso até morrer sem luxo
Pois, enquanto houver um gaúcho,
Não morrerá a tradição.
 
ETERNA RONDA
Adair de Freitas
 Tamanho da fonte 
A poeira da estrada, o berro do gado, o grito do homem.
O som do cincerro da égua madrinha,
o ruído do freio mascando na boca,
do flete cansado por léguas de estrada.
É a tropa que passa na frente dos olhos do velho xiru.
Mas ele só vê.

Os outros campeiros proseando na frente do velho galpão,
ao menos entendem porque o velho taura, de olhos perdidos
na estrada real,
mateando solito, a cuia pequena nas mãos enrugadas,
parece que fita no verde do mate, bebendo distâncias
de campos imensos que amou por igual.

Os outros não vêem, mas ele sim, vê!
Contempla extasiado, o azul das lagoas,
que servem de espelho pra lua faceira.
O gado pastando no rumo às aguadas;
o vento brincando nas folhas caídas,
dizendo ao campeiro que a chuva já vem.
Retoço de potros que agitam manadas.
A terra molhada de chuva miúda, que deixa nos ares
um cheiro que entra pra dentro da gente que é terra também.
Mas ele só vê.

Na mente cansada do velho tropeiro, se formam imagens
de um tempo, que o tempo implacável matou.
O tempo! Esse maula proscrito que zomba da vida.
Que vem pisoteando no rastro dos velhos,
e passa por nós no encalço dos novos.
Porém no seu rastro ninguém vai pisar.
Esse maula que muda o perfil das pessoas,
transforma paisagens e nunca se cansa.
Roubou do tropeiro que hoje lhes falo
o entono, a saúde, gastou-lhe a matéria,
matou-lhe a esperança.
E como se tudo o que fez, não bastasse,
tirou dos seus olhos a força de ver.
Porém que ironia! O taura sorri!
O tempo maleva, sequer se deu conta,
que ao velho tropeiro lhe fez um favor.
Seus olhos que viram do alto dos montes
sem fim de horizontes tão puros e iguais,
por certo que iriam chorar a desgraça
de ver só fumaça que chamam progresso.
Que bom que seus olhos já não vêem mais.
Seus olhos que viram os campos brotando
e sangas cantando, acordar madrugadas.
Que bom que não vêem mais nada seus olhos.
Nas sangas, o espólio das grandes barragens,
e as toscas imagens das terras lavradas.

Seus olhos que um dia brilharam de amor,
escravos da flor que é mulher, bem-querer,
não vêem esta imagem que ao tempo se molda
pois muita chinoca, só é porque é moda
e ao menos um mate, nos sabe fazer.
E as tropas enormes, boiada taluda,
cavalos de muda rachando de gordos.
É bom que não veja do tempo o estrago
seus filhos e netos, em cavalos magros,
tropeando o boi lerdo, de um mísero soldo.
E as noites de ronda! Que noites aquelas!
Milhões de janelas abertas pra o mundo.
O brilho do pasto molhado de orvalho,
os olhos do ronda buscando agasalho,
nos olhos do gado de olhar tão profundo.
Por isso que vê-lo tropear pensamentos,
levando nos tentos um mundo que é seu,
eu fico pensando. Se vejo e sou triste,
se é noite em teus olhos, mas vês, o que vistes,
por certo que és bem mais feliz, do que eu!

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Um grande abraço.

Clovis Fonseca

Produtor e Diretor.

Rio Grande/RS.

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