terça-feira, 5 de outubro de 2010

 
CONSERVANDO A TRADIÇÃO
Albeni Carmo de Oliveira
 Tamanho da fonte 
Um dia um peão já velho,
Destes curtidos dos anos,
De alegrias e desenganos
Que arrebanhou tempo a fora,
Sentia chegar a hora
Do seu último pedido
Chamou o filho querido
E disse com a voz sonora:

- Meu filho chega bem perto
Para escutar o que te digo,
Pois mais que filho és um amigo
Por isso presta atenção,
E escuta meu coração
Que te fala com certeza,
E veja quanta beleza
Que existe na tradição.

Tradição não é grossura
E nem vergonha p'ra gente,
Pois tu deves ter na mente
O ventre que te gerou,
O berço que te embalou
Pois não nasceu da macega,
Honre o sangue que carregas
E a raiz que tu brotou.

Por isso quero pedir-te
Mais que um pedido, um favor:
Que tu sempre dês valor
Para as coisas do nosso Estado,
Procuras estar ao lado
Da justiça e da razão,
Nunca esqueças a tradição
Que herdastes do teu passado.

Nunca deixa deturparem
As coisas aqui do pago,
Das pilchas ao mate-amargo
Ouça o que este peão te diz:
Aí ficarei feliz
Se aprenderes a lição,
Que o povo sem tradição
É um povo sem raiz.

Olhes bem, quando mateares
Veja que linda comunhão,
A cuia de mão em mão
Sem preconceito ou vaidade,
Traduz a simplicidade
E as tradições deste Estado,
Onde o cru e o letrado
Vivem na mesma irmandade.

Procures estar presente
Nos movimentos gaúchos,
E saibas agüentar o repuxo
Quando a situação exigir,
Nunca penses em trair
As causas tradicionais,
Pois a glória de ancestrais
Sempre há de ressurgir.

Olhe sempre ao teu redor
E veja quanta beleza,
Que a nossa mãe natureza
Te deu sem nada cobrar,
Então deves preservar
Com carinho e com afeto,
Um dia teus filhos e netos
Também irão desfrutar.

Por isso que te chamei
Para conversar contigo
Atendas este teu amigo
E ensina teus descendentes,
A levar sempre p'ra frente
As epopéias caudilhas,
Como fizeram os farroupilhas
Defendendo nossa gente.

O pouco que preservares
desta glória e galhardia,
Será de grande valia
Para futuras gerações,
Que aprenderão as lições
De práticas e de destrezas
E saberão as grandezas
Destas nossas tradições.

Se atenderes meu pedido
Com orgulho, raça e fé,
E manteres sempre em pé
As coisas aqui deste chão.
Aí te darei a benção
E posso até morrer sem luxo
Pois, enquanto houver um gaúcho,
Não morrerá a tradição.
 
ETERNA RONDA
Adair de Freitas
 Tamanho da fonte 
A poeira da estrada, o berro do gado, o grito do homem.
O som do cincerro da égua madrinha,
o ruído do freio mascando na boca,
do flete cansado por léguas de estrada.
É a tropa que passa na frente dos olhos do velho xiru.
Mas ele só vê.

Os outros campeiros proseando na frente do velho galpão,
ao menos entendem porque o velho taura, de olhos perdidos
na estrada real,
mateando solito, a cuia pequena nas mãos enrugadas,
parece que fita no verde do mate, bebendo distâncias
de campos imensos que amou por igual.

Os outros não vêem, mas ele sim, vê!
Contempla extasiado, o azul das lagoas,
que servem de espelho pra lua faceira.
O gado pastando no rumo às aguadas;
o vento brincando nas folhas caídas,
dizendo ao campeiro que a chuva já vem.
Retoço de potros que agitam manadas.
A terra molhada de chuva miúda, que deixa nos ares
um cheiro que entra pra dentro da gente que é terra também.
Mas ele só vê.

Na mente cansada do velho tropeiro, se formam imagens
de um tempo, que o tempo implacável matou.
O tempo! Esse maula proscrito que zomba da vida.
Que vem pisoteando no rastro dos velhos,
e passa por nós no encalço dos novos.
Porém no seu rastro ninguém vai pisar.
Esse maula que muda o perfil das pessoas,
transforma paisagens e nunca se cansa.
Roubou do tropeiro que hoje lhes falo
o entono, a saúde, gastou-lhe a matéria,
matou-lhe a esperança.
E como se tudo o que fez, não bastasse,
tirou dos seus olhos a força de ver.
Porém que ironia! O taura sorri!
O tempo maleva, sequer se deu conta,
que ao velho tropeiro lhe fez um favor.
Seus olhos que viram do alto dos montes
sem fim de horizontes tão puros e iguais,
por certo que iriam chorar a desgraça
de ver só fumaça que chamam progresso.
Que bom que seus olhos já não vêem mais.
Seus olhos que viram os campos brotando
e sangas cantando, acordar madrugadas.
Que bom que não vêem mais nada seus olhos.
Nas sangas, o espólio das grandes barragens,
e as toscas imagens das terras lavradas.

Seus olhos que um dia brilharam de amor,
escravos da flor que é mulher, bem-querer,
não vêem esta imagem que ao tempo se molda
pois muita chinoca, só é porque é moda
e ao menos um mate, nos sabe fazer.
E as tropas enormes, boiada taluda,
cavalos de muda rachando de gordos.
É bom que não veja do tempo o estrago
seus filhos e netos, em cavalos magros,
tropeando o boi lerdo, de um mísero soldo.
E as noites de ronda! Que noites aquelas!
Milhões de janelas abertas pra o mundo.
O brilho do pasto molhado de orvalho,
os olhos do ronda buscando agasalho,
nos olhos do gado de olhar tão profundo.
Por isso que vê-lo tropear pensamentos,
levando nos tentos um mundo que é seu,
eu fico pensando. Se vejo e sou triste,
se é noite em teus olhos, mas vês, o que vistes,
por certo que és bem mais feliz, do que eu!
ALMA GAUDÉRIA
Albeni Carmo de Oliveira
 Tamanho da fonte 
Dos tempos que já passaram
Das andanças que eu fazia,
Vivi horas de alegria
Que nunca vou esquecer.
E não é fácil descrever
Os lugares que passai,
Mas de todos lembrarei
Até a hora de morrer.

E talvez após a morte
Fim desta viagem gaudéria,
Minha alma sem matéria
Percorra todo o rincão.
Não vou ser assombração
`'ra não assustar ninguém,
Só quero cuidar, do além
As coisas da tradição.

Quero reencarnar sem maldade
Na mente de um trovador,
Para mostrar o valor
Do poeta não letrado
E fazer verso rimado
Ao som da gaita e violão,
P'ra mostrar que a tradição
Não morre no meu estado.

Assim esta minha alma
Viverá sempre contente,
Bebendo água em vertente
Nas cacimbas lá de fora
E quando romper a Aurora,
Quero andar na invernada
Cantando e dando risada
No tilintar de uma espora.

Quero lá de vez em quando
N'algum fandango chegar.
Ver todo mundo dançar
Com luz fraca de lampião,
E uma gaita de botão
Num xote velho largado
Desses que é sempre tocado
Em surungos de galpão.

Se no final do surungo
Alguém se desentender,
Aí é que quero ver
A destreza do peão
Pois para não ir ao chão
Tem que ser mui destemido,
Quero até ser o tinido
Da folha de algum facão.

Mas não quero ver jamais
Alguém correndo com medo,
Pois aí está o segredo
Da velha raça caudilha,
Eu quero ser a presilha
De um laço bem trançado
Quero ver ser conservado
Os ideais farroupilhas.

Se o bom velho permitir
Que eu reencarne em outro corpo,
Quero servir de conforto
P'ra alguma china manheira,
E voltar lá na mangueira
P'ra montar potro sem freio
Enfim, estar num rodeio
Ou festa de domingueira.

Assim minha alma xucra
Estará sempre presente,
Nas coisas da nossa gente
Guardadas com devoção
E quando por este chão
Surgir algo diferente,
Eu quero surgir na frente
Repontando a tradição.

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